Imagine uma mesa posta. Seis pessoas, seis taças. Em três delas, um tinto encorpado. Na quarta, um branco mais leve, de teor alcoólico reduzido. Na quinta, um espumante desalcoolizado. Na sexta, suco de uva integral. Agora me responde com sinceridade: qual dessas seis pessoas está aproveitando menos a noite?
A resposta honesta é nenhuma. E é exatamente sobre isso que eu quero conversar neste mês.
Há alguns anos, essa mesa seria estranha. Quem não bebia álcool ficava com o copo d'água, meio deslocado, respondendo pela terceira vez que não, obrigado, estou bem assim. Havia um constrangimento silencioso de ambos os lados — de quem não bebia e se sentia fora, e de quem bebia e não sabia muito bem como agir. Hoje essa mesa não só é possível como está se tornando comum. E, na minha leitura de sommelière, isso é uma das melhores coisas que aconteceram com o vinho em muito tempo.
Porque o vinho nunca foi sobre o álcool. O álcool é consequência de um processo, não é o propósito dele. O propósito sempre foi outro: a uva, o lugar, o trabalho de quem plantou e colheu, e o momento que se cria quando aquilo chega à mesa.
Não existe taça melhor ou pior. Existe o momento — e ele é exatamente o mesmo para todos que estão sentados à mesa.
E não se trata de uma impressão minha. Os números mostram um movimento real: uma pesquisa do CISA — Centro de Informações sobre Saúde e Álcool — apontou que a parcela de brasileiros que declarou não ter consumido bebida alcoólica subiu de 55% em 2023 para 64% em 2025. O avanço é mais forte justamente entre os adultos de 18 a 34 anos, a geração que está formando os hábitos das próximas décadas.
Quer dizer: não é modismo passageiro nem nicho pequeno. É uma mudança de comportamento. E o mercado do vinho, que às vezes demora a se mexer, dessa vez está se movendo rápido — e perto de nós.
Acontecendo agora · Serra Gaúcha
A primeira planta de desalcoolização em escala do Brasil foi inaugurada este mês
No dia 10 de outubro, em Flores da Cunha, entrou em operação uma planta dedicada à desalcoolização de vinhos, com investimento de R$ 7 milhões e capacidade para até 5 mil litros por dia. A tecnologia combina separação por membranas de osmose e destilação, trabalhando sempre abaixo de 40°C — temperatura baixa o suficiente para retirar o álcool sem cozinhar os aromas. Vinícolas como Salton e Angelo Luvison já estão entre os primeiros clientes, e há uma fila de mais de vinte produtores aguardando. Não é um experimento isolado: é infraestrutura sendo construída para uma demanda que chegou para ficar.
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As três modalidades — e nenhuma hierarquia entre elas
Gosto de organizar a conversa assim, porque ajuda a entender que não estamos falando de categorias que competem. São três caminhos para o mesmo lugar.
01
Teor tradicional · 11% a 15% de álcool
O vinho como sempre conhecemos
Tintos, brancos, rosés e espumantes de graduação integral
É o vinho em sua forma completa, onde o álcool cumpre funções técnicas reais: carrega os aromas até o nariz, dá corpo e sensação de volume na boca, e é parte do que permite a um grande vinho envelhecer por décadas. Nada disso deixou de ser verdade nem perdeu valor. Quem escolhe este caminho não precisa se justificar por nada — está bebendo vinho na forma que construiu toda a cultura que nos trouxe até aqui.
Estrutura
Guarda
Complexidade
02
Teor reduzido · cerca de 5% a 10% de álcool
Os vinhos mais leves
Colheita antecipada, regiões frias e estilos de baixa graduação
Esta é a faixa que mais cresce discretamente, e é a que eu mais tenho visto chegar à loja. São vinhos que nascem leves por escolha de quem os faz: uvas colhidas um pouco mais cedo, quando o açúcar ainda não subiu demais, ou regiões de clima fresco onde a maturação acontece devagar. O resultado são vinhos de acidez viva, fáceis de beber, que acompanham uma tarde inteira sem pesar. Tem gente que acha que vinho leve é vinho menor. Não é. É vinho com outro propósito.
Frescor
Leveza
Dia a dia
03
Zero álcool · até 0,5% de álcool
O desalcoolizado
Vinho feito por inteiro — e depois desalcoolizado
Aqui mora o maior mal-entendido, então vale explicar direito. O desalcoolizado não é suco e não é um atalho. Ele nasce vinho: a uva fermenta normalmente, desenvolve taninos, acidez e estrutura, e em alguns casos passa até por barrica de carvalho. Só depois de pronto o álcool é retirado. É por isso que um bom desalcoolizado tem amargor, tem tanino, tem final de boca — coisas que nenhum suco tem. No Brasil, por exigência legal, ele não pode ser chamado de vinho no rótulo: aparece como fermentado de uva desalcoolizado. O nome é técnico e sem charme, mas o que está dentro da garrafa é, sim, vinho que teve o álcool removido.
Osmose reversa
Destilação a vácuo
Tecnologia
Para entender · Técnica
Como se tira o álcool de um vinho sem destruí-lo
O álcool evapora a 78°C, mas boa parte dos aromas de um vinho é ainda mais volátil — se você simplesmente ferver, perde tudo e sobra um líquido sem alma. Foi exatamente isso que deu má fama aos primeiros zero álcool do mercado. As técnicas atuais resolvem o problema de dois jeitos. Na destilação a vácuo, reduz-se a pressão dentro do equipamento, o que faz o álcool evaporar a temperaturas bem mais baixas, preservando o aromático. Na osmose reversa, o vinho é empurrado contra uma membrana que separa o álcool e a água do restante, sem calor nenhum. Nos dois casos, os compostos aromáticos capturados no processo são devolvidos ao líquido final. É engenharia fina — e é por isso que o desalcoolizado de hoje não tem nada a ver com o de dez anos atrás.
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O suco que senta à mesa como vinho
Tem um exemplo que eu adoro usar quando alguém me pergunta sobre isso na loja, porque ele resolve a questão sem nenhuma teoria. São dois sucos da Casa Madeira que eu tenho aqui, e o que me encanta neles não é serem sucos — é a intenção com que foram feitos.
Suco de uva, no Brasil, quase sempre se faz com Bordô, Isabel, Concord — uvas americanas, rústicas, de polpa abundante. São ótimas para isso e foi sempre assim. A Casa Madeira fez diferente: foi buscar uvas de vinho fino.
04
Brasil · Vale dos Vinhedos · Casa Madeira
Suco de Uva Premium Integral — Merlot
Tinto · 100% Merlot · garrafa 750 ml
Merlot é uma das grandes uvas tintas do mundo, responsável por vinhos clássicos de Bordeaux e por boa parte dos melhores tintos brasileiros. Transformá-la em suco é uma decisão quase extravagante — e o resultado se nota na taça: cor profunda, fruta madura e redonda, e uma ausência total daquele doce excessivo que marca o suco comum. É um suco com estrutura, de uva nobre, servido na garrafa de 750 ml que todo mundo reconhece como garrafa de vinho.
Uva de vinho fino
Integral
Zero álcool
05
Brasil · Vale dos Vinhedos · Casa Madeira
Suco de Uva Premium Integral — Rosé de Cabernet Sauvignon
Rosé · 100% Cabernet Sauvignon · garrafa 750 ml
Este eu acho ainda mais ousado. Cabernet Sauvignon é a uva tinta mais plantada e mais prestigiada do planeta — e aqui ela vira um suco rosé, de cor delicada e perfil muito mais fresco e frutado do que se espera. Serve gelado, em taça de vinho, e tem presença suficiente para acompanhar a mesa do início ao fim. É a garrafa que eu indico quando alguém me diz que vai receber gente em casa e tem criança, grávida, alguém dirigindo ou alguém que simplesmente não quer beber naquele dia.
Uva de vinho fino
Fresco
Para toda a mesa
E é aqui que a conversa toda se fecha. Porque quando você coloca uma garrafa dessas no centro da mesa, ninguém fica de fora. A criança tem a taça dela. A amiga grávida tem a dela. Quem vai dirigir tem a dela. Quem está tomando um remédio tem a dela. Quem só não está com vontade naquele dia tem a dela. E ninguém precisa explicar nada a ninguém.
É isso que eu quero dizer quando falo em bem-estar. Não é dieta, não é restrição, não é abrir mão de nada. É poder estar inteiro naquele momento, do seu jeito, sem ter que se justificar.
Quem bebe vinho com álcool não tem nada que julgar quem não bebe. E quem não bebe não tem nada que julgar quem bebe. Os dois estão fazendo a mesma coisa: aproveitando a companhia e o que está na taça.
Confesso que, até hoje, ainda não recebi um pedido de zero álcool na loja. Mas eu vejo o movimento chegando, e vejo a qualidade subindo rápido. Vinícolas que eu respeito muito já estão nessa estrada — Luiz Argenta, Amitié, a Cooperativa Aurora — e os lançamentos estão cada vez mais consistentes. Não é mais aquele produto improvisado para quem não tinha opção. É produto pensado, com investimento sério por trás, feito para quem quer qualidade sem o álcool.
E quando um setor investe assim, todo mundo ganha. Ganha quem não bebe e finalmente tem alternativa à altura. Ganha quem bebe, porque a mesa fica mais cheia e mais variada. Ganha o produtor, que encontra um público novo sem abrir mão do seu jeito tradicional de fazer vinho. E ganha o vinho como cultura, que deixa de ser um clube com regra de entrada e passa a ser o que sempre deveria ter sido: um convite.
Então, se eu puder deixar uma única ideia deste mês, é esta: não existe regra. Não existe a taça certa. Existe a sua taça, no seu momento, com quem você escolheu estar. Se dentro dela tem 14% de álcool, 5% ou nenhum, isso é detalhe técnico — não é critério de julgamento.
O resto é o de sempre — e é o que realmente importa: boa companhia, boa conversa, sem pressa. É dessa leveza que a gente precisa nos tempos de hoje. Todo mundo precisa.
Com carinho,
Rafaela Crossetti
Sommelière · ABS-RS
Brisa Mar Vinhos
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